sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Cristianismo sem cruz?

Houve um tempo em que acreditei de verdade que a humanidade tinha jeito. Estava no meio do curso de Psicologia e entrei em contato com as ideias de Carl Rogers, psicólogo humanista. Grosso modo, ele dizia que as pessoas são essencialmente boas, mas que acidentes de percursos na vida terminam por fazer com que elas não desenvolvam o pleno potencial que possuem. Então, por causa disso, sofremos dos mais variados problemas da mente – seria tudo uma questão de anomalia no desenvolvimento.

Felizmente, minha ilusão com o ser humano acabou. Deixei parte das propostas de Rogers de lado (pois algumas são boas) para abraçar com muita força o que a bíblia diz sobre a natureza humana: ela é essencialmente má (Tiago 1.14-15).

Não gosto de admitir, mas compartilho com você a fraqueza moral de desejar, naturalmente, as coisas erradas ao invés das certas. Há um apelo interno em minha alma para ter comportamentos e atitudes contrárias ao que Deus deseja (Romanos 7.18-23).

Infelizmente, muita gente que se declara cristã tem esquecido isso. E as consequências desse esquecimento são sérias, pois ao negarmos nossa incapacidade natural de sermos bons e de vivermos conforme a vontade de Deus, declaramos que o sacrifício de Jesus na cruz foi desnecessário. Afinal, para que Jesus precisaria morrer se nós mesmos pudéssemos dar um jeitinho em nossas vidas e, com algum esforço, conseguíssemos viver de acordo com a vontade de Deus?

Quando negamos a existência de nossa natureza caída, imperfeita e pecadora, estamos nos esquecendo dos motivos que levaram Jesus a suportar a morte na cruz. Cristo não viveu e morreu por uma humanidade capaz de ser boa e obediente, mas por pessoas como eu e você: pecadores, perdidos e incapazes de se aperfeiçoarem por meio próprios (Lucas 5.32; I João 1.8; I Pedro 3.18).

Foi pensando nessa nossa tendência natural para o mal que Jesus disse: “se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz, e siga-me” (Mateus 16.24). Ele quis dizer que para segui-lo de verdade, as pessoas deveriam estar dispostas a deixarem de lado muitas coisas (renúncia) e a viverem uma vida sacrificial de obediência ao desejo de Deus (cruz).

Fico triste por perceber que nem sempre entendemos que cristianismo é muito mais do que ir à igreja, ter uma crença ou participar de rituais. Ser cristão é uma maneira de viver que sempre vai exigir muitas coisas de nós – isso é a cruz a que Jesus se referiu. Foi a isso que Paulo quis dizer quando escreveu: “as pessoas que pertencem a Cristo Jesus crucificaram a natureza humana delas, junto com todas as paixões e desejos dessa natureza” (Gálatas 5.24).

Quando nos esquecemos dessas exigências de renúncia e cruz, nosso evangelho fica empobrecido. E por que não dizer que ele deixa de ser o verdadeiro evangelho para ser uma maldição (Gálatas 1.8)? Entenda: ao me declarar cristão, um seguidor de Jesus, posso acreditar que estou dando bons frutos, que verei a Deus e que tudo está bem. A verdade, porém, é que se eu levo a vida da mesma forma que todo mundo, então sou infrutífero (Mateus 13.22), não verei a Deus (Hebreus 12.14) e está tudo errado! Isso não é o evangelho de Jesus, é uma maldição na minha vida – acredito que estou indo bem quando, na verdade, estou indo muito mal. Isso não é ser cristão, é me enganar, pois não existe cristianismo sem renúncia e cruz.

O evangelho de Cristo, feito do reconhecimento de nossa condição imperfeita, da renúncia ao pecado e do viver segundo a vontade de Deus, não é popular. Preferimos ouvir mentiras ou auto-ajuda fantasiada de verdade (II Timóteo 4.3,4), a qual usa partes isoladas da bíblia ou ideias humanas para nos fazer acreditar que podemos implantar o céu na terra, acabando com todas as nossas dores e decepções pessoais. Quanto engano disfarçado de cristianismo...

Tomar a cruz fala sobre vivermos procurando a ajuda de Deus para vencermos os desejos de nossa natureza ruim (Gálatas 5.16), com temor por que um dia teremos que prestar conta a ele de nossos atos (I Pedro 1.17). Fala sobre aprendermos a discernir o que agrada a Deus (Efésios 5.10) e a nos esforçarmos como um atleta para sermos aprovados pelo Senhor (I Coríntios 9.24-27).

A cruz que devemos tomar é parte essencial do evangelho (Marcos 8.34). Aquele que se declara cristão e se recusa a carregá-la, persistindo em viver conforme seus desejos naturais, pode ser qualquer coisa, menos um seguidor de Jesus.

Por isso, oro “para ser ensinado a me livrar dessa natureza má, que se corrompe por desejos enganosos. Para assim, ter minha maneira de pensar renovada e ser revestido do novo homem, criado para ser semelhante a Deus em justiça e em santidade provenientes da verdade” (Efésios 4.22-24).

Um comentário:

  1. Nossa Ângelo,
    Quanta sabedoria! Fiquei até sem palavras...
    Muito bom mesmo. Agradeço a Deus por ter colocado você e a Cris em minha vida, foi realmente um presente! Vocês são um verdadeiro exemplo para mim de cristãos. Não o tipo de cristãos que hoje é valorizado, mais cristãos segundo a bíblia.
    Me orgulho de poder contar com vocês!
    Muito obrigada por tudo!
    Ótimo texto! Deus continue te usando neste projeto. Que possamos voltar ao verdadeiro evangelho.

    Sola Deo Glória.

    Abraços,

    Moniky

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